quarta-feira, 10 de abril de 2013

"SOU PECUARISTA" FOI ASSIM QUE FERNANDINHO BEIRA-MAR SE DEFINIU QUANDO FOI PRESO NA COLÔMBIA.

Beira-Mar ao ser preso: “Sou pecuarista”


por Luiz Carlos Azenha


Encontrei Fernandinho Beira-Mar diante de um avião, na Colômbia, logo depois que ele foi preso. Topou dar entrevista, mas negou ser traficante de drogas: “Soy ganadero.”

Quase respondi a ele: “E eu sou o Papa.” Mas podia fazer mal à minha saúde.
Ao desembarcar em Bogotá, vindo do interior, Beira-Mar foi recebido na porta do avião pela nossa equipe de reportagem e pelo então secretário de Segurança do Rio de Janeiro, Josias Quintal. Vestia um colete à prova de balas. Autoridades brasileiras acusavam Beira-Mar de ser o maior traficante de cocaína do país

Viajamos para a Colômbia a bordo de um jatinho do governo do Rio. Depois de uma escala em Bogotá, seguimos para um aeroporto do interior, em busca de Beira-Mar. Os policiais cariocas estavam ansiosos e confusos. Pousamos num aeroporto no meio da floresta, para reabastecer, depois de sobrevoar a selva sem rumo. Houve um desencontro com autoridades colombianas.

Fernandinho só seria levado para Bogotá no dia seguinte. “Soy ganadero, soy ganadero”, foi o que respondeu quando perguntei se, de fato, ele comandava o tráfico refugiado no interior da Colômbia. Pelo que disse na entrevista, tinha se tornado pecuarista na região produtora de cocaína.

A foto acima foi tirada no aeroporto em que pousamos para reabastecer, perdido no interior da Colômbia. Apareço com Josias Quintal, um assessor dele e um colega jornalista. Estávamos em pleno território de traficantes e guerrilheiros.  Posamos para a foto diante de um cargueiro Ilyushin, de fabricação russa, pertencente à companhia estatal Aeroflot. O que o avião estava fazendo ali?

Na época, Bogotá estava sob toque de recolher informal. Recebemos recomendação para não deixar o hotel depois das seis da tarde. Os guerrilheiros andavam tomando estrangeiros como reféns. E a bandidagem detonava caixas eletrônicos durante a madrugada, para tomar dinheiro dos bancos.

A capital colombiana é uma cidade agradável. Passeando por ela, é possível perceber as contradições que alimentaram Gabriel Garcia Márquez. Um lugar bonito, feio, elegante, miserável, em que índios e descendentes de espanhóis freqüentam mundos distintos.

Beira-Mar foi apresentado oficialmente à imprensa no dia seguinte à nossa chegada, com a mão direita engessada. Teria se ferido durante a fuga.

O governo local queria mesmo era prender Negro Acácio, integrante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC, que tinham se associado aos traficantes. As FARC, na época, controlavam boa parte do território colombiano, eram acusadas de dar passagem livre para a cocaína em troca de um pedágio.

Beira-Mar foi tratado na Colômbia como um traficante de segunda classe. Depois de anunciar a prisão como outra vitória do Exército e da polícia, os colombianos dispensaram Fernandinho como se fosse um pé-de-chinelo. Ele foi rapidamente deportado para o Brasil.

Com ajuda em dinheiro, treinamento e helicópteros, os Estados Unidos faziam pressão para que o governo local concentrasse o fogo nas FARC, como forma de enfraquecer os traficantes. Negro Acácio, sim, era um peixe graúdo.
Na entrevista que fiz com Fernandinho, na porta do avião, ele falou com a suavidade de um malandro do morro, como se estivesse surpreso com a prisão: “Não devo nada.”

Depois de fugir do Brasil, onde estava jurado de morte, o traficante foi para a Bolívia. Ele se associou ao maior cartel local. Numa disputa por poder, mandou matar os dois irmãos que comandavam a gangue. Com medo de vingança, fugiu de novo, desta vez para a Colômbia. Teria se ligado à guerrilha num negócio lucrativo: mandava cocaína para a Europa, passando por território brasileiro, e recebia de volta o armamento, usado para “pagar pedágio”.

Desde que voltou ao Brasil, Fernandinho já foi transferido várias vezes de cadeia. O sonho dele era cumprir pena no Rio de Janeiro. Agentes penitenciários e policiais teriam enriquecido às custas do traficante? Suspeito que se Beira-Mar abrir a boca vai comprometer muita gente. Mas aí corre o risco de morrer na cadeia.

A imagem mais marcante da viagem foi a do cargueiro russo, avaliado em alguns milhões de dólares, estacionado numa pista no meio da floresta. Faria parte da ponte aérea do pó, ligando a Colômbia ao mercado europeu.

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