Django Livre: o Anti-Obama, Anti-Spike Lee
Django Livre - possivelmente é o melhor filme de Quentin Tarantino.
A exemplo das demais obras do cineasta, trata-se de um projeto
tecnicamente irretocável: da trilha sonora às atuações, passando pela
fotografia e pelas incomparáveis cenas de ação. No entanto, há algo de
superior em Django em relação aos demais filmes de Tarantino -- que é
justamente o modo praticamente perfeito como a narrativa habita seu locus histórico. Poucas películas pontuaram tão bem a questão racial americana quanto ela. O cowboy
é negro, o anti-racista é alemão, o grande vilão é a servidão
voluntária -- que é prontamente desnaturalizada; não é uma questão de
mocinhos e bandidos, é uma questão de vontade de potência contra paixões
tristes.
Há dois pontos em Django que incomodaram mesmo o movimento negro
americano (o que é revelador): o primeiro é que se trata de um filme bem
humorado, o segundo é que a servidão voluntária é retratada como o
centro de gravidade do esquema racista da Casa Grande. Talvez incomode
ver a KKK sendo ridicularizada antes de ser destroçada por Django na
cena mais engraçada do filme -- mas quem não se agrada do riso é,
certamente, digno de alguma desconfiança (como, aliás, já lembrava um
tal Foucault). Talvez incomode admitir o colaboracionismo negro no
esquema da escravidão ou mesmo que não conciliação possível. Mas ter
cutucado essas feridas é o torna Django sensacional.
Leonardo de Caprio interpreta não o antagonista da trama, mas uma marionete deprimente de um esquema no qual Samuel L. Jackson,
manipulador e inteligentíssimo, move as pobres mentes brancas para a
manutenção de uma ordem na qual ele prepondera como chefe e morador
distinto da Casa Grande (sem ele mesmo deixar de ser escravo ou, também,
uma peça do jogo). O racismo americano é demonstrado em toda a sua
dimensão sistêmica, sem se rebaixar ao discurso de conciliação -- como o
de Obama na política ou mesmo aquele visto em películas como Invictus -- ou ao maniqueísmo -- como insiste um Spike Lee que não viu e não e não gostou do filme.
E Jamie Foxx está soberbo. O seu Django é a expressão máxima e
definitiva da potência da gente negra. Se ele realmente não era a
primeira opção de Tarantino, seguramente, entrará para o rol dos grandes
planos B da história do cinema. Deus abençoe o fato de ter sido ele, e
não (o cada vez mais irrelevante) Will Smith, o Django. Só o negro é
capaz de romper os grilhões que lhe prendem -- e o olhar cortante (de
amor, de paixão) de Foxx traduz isso perfeitamente. O inimigo está aqui
dentro. Django para lá da farsa histórica e do discurso auto-indulgente:
é tudo questão de força, pura força e puro estilo, é questão de
confrontar e saber confrontar. Sem isso, não existe liberdade -- e o que
interessa: os negros podem.
Django acerta um tiro certeiro no coração do racismo americano. E também
nas duas faces nas quais se desdobra o lado asceta do movimento negro.
Aquele discurso que gira em torno da culpa, seja tirando a culpa dos
brancos (como no caso de Obama) ou colocando-a paranoicamente sobre eles
(no caso de um Spike Lee). Não é questão de culpa, mas sim das coisas
como elas realmente estão -- e de que é preciso fazer a diferença
optando pela libertação. Não há motivo para se temer o riso.
Esta postagem é a primeira do ano V de O Descurvo, ontem foi aniversário de quatro anos do Blog.
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